ATENÇÃO! Este texto não possui caráter acadêmico.
(Texto elaborado por Stefani Malena Trunkle de Oliveira, graduada em Pedagogia, Especializada em Pedagogia Waldorf, atualmente trabalha como Professora Waldorf na escola “Jardim de Infância Margarida”)
“Conversa vai, conversa vem”; “jogar conversa fora”; “precisamos conversar”; “a conversa definitiva”; “ficar de papo para o ar”. Quantas expressões e situações, que dizem respeito à linguagem e comunicação, nos rodeiam! A linguagem oral é a maior fonte de comunicação do mundo adulto. É através dela que conversamos, explicamos, brigamos, passamos conhecimento, adquirimos conhecimento, conhecemos os outros, os outros nos conhecem, coordenamos situações, explicamos situações, e mil e outras possibilidades.
Mas nós, adultos, quase nunca paramos para pensar em uma coisa tão óbvia: um dia, todos nós não sabíamos falar! Todos nós, detentores da linguagem falada, nascemos pequeninos, indefesos, sabendo emitir uns poucos sons que mal nossa mãe sabia decifrar (é claro que nós valíamos de bons pulmões que nos ajudavam a fazer uma ótima comunicação na hora do choro). Esse pequenino ser que nasce tem o mundo para conhecer e, entre outras aquisições, está uma das mais sublimes: o aprendizado da fala. O que se dá nesse pequeno ser para “entrar” no mundo dos sons, nomes e palavras?
Eu, como mãe de dois exemplos recentes, apaixonada pela nossa língua, e professora de crianças que estão aprendendo a falar, posso lhes contar um pouco: Daniel, prestes a fazer quatro anos, é um tagarela. Fala perfeitamente o português, descobriu recentemente o mundo dos livros e adora brincar de misturar palavras e perceber como elas combinam ou ficam engraçadas juntas, ou estranhas, ou com rima etc. (isso sem ações pedagógicas!). Nina, um ano e oito meses, é a tagarela em cópia do irmão. Imita tudo o que ele fala, mas ainda com muitos erros de pronuncia (uma coisa engraçada e deliciosa de se escutar!), e muitas vezes ri das brincadeiras fonéticas do irmão sem entender nada.
Os dois passaram pela fase dura em que eu não sabia ao certo o que queriam, se choravam de fome, de dor, ou de manha, ou sabe-se lá. Por volta dos onze, doze meses de vida, começa-se a observar uma coisa linda e magnífica na criança: quando falamos com uma, ela para e olha atentamente os movimentos de nossos lábios e tenta reproduzir os mesmos movimentos com sua boca. É uma fase bem sutil que pode passar despercebida ao adulto distraído. Acredito que esse seja o primeiro despertar mais “consciente” para o mundo da fala.
Depois a criança começa a repetir sons monossílabos que correspondem a algo ou alguém: “mã” (mamãe), “pá” (papai ou comida), “au au” (cachorro). E em seguida, aumenta a construção das palavras: “mamá”, “papá”, nenê”; para depois: “nenê naná”, “mamá nenê”, “Nina papá” etc. E assim vai até a elaboração de uma frase mais completa.
Outra coisa importante desse caminho é quando a criança percebe que cada coisa tem um nome. Antes “au au” poderia ser o cachorro, o gato, o ursinho de pelúcia e até a pombinha que aparece voando e andando pelas ruas! De repente a criança se dá conta que cada coisa tem um nome e fica ávida por aprender todos eles. Lembro-me muito de meu filho nessa fase: ele perguntava vinte vezes ou mais por dia . “Como chama?”. E apontava para o que queria saber, podendo ser várias vezes o mesmo objeto, como se quisesse se apropriar das coisas e das palavras. Para que todo esse caminho de aprendizado da fala seja adquirido corretamente, um ponto essencial é preciso ser observado: como é a fala e a postura do adulto acerca à criança? Como mãe, é fácil sucumbir a tentadora vontade de imitar aquela fala de bebê, tão engraçadinha, tão fofinha, ao falar com a criança. Mas se a criança ou bebê não escuta o correto, como conseguirá falar corretamente? Ao lidar com crianças, estamos atentos para a formação de um ser humano ao mundo e à autonomia? Vemos os bebês e crianças pequenas como seres perfeitos, inteligentes, dotados de total capacidade de, já bem cedo, entenderem tudo o que falamos de maneira clara e correta? Da mesma forma como falaríamos com um adulto? Lembrando: a aquisição da fala clara e correta é o pressuposto à aquisição de um pensar claro e correto. Talvez esse seja um dos motivos de tanta confusão no mundo dos adultos…
Enfim, lidar com crianças é o maior presente e o maior desafio que um ser humano adulto pode receber, pois há ali uma grande força de imitação de tudo o que fazemos, pensamos e sentimos, e também um germe misterioso de potencialidade que só iremos descobrir com o tempo, calma e muito amor.